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Como continuar sendo casal depois que viramos pais

  • Angélica Neris
  • 15 de dez. de 2025
  • 4 min de leitura

Atualizado: 15 de dez. de 2025

Em algumas leituras autores afirmam sobre a necessidade dos cônjuges ou parceiros não esquecerem de ser casal com a chegada dos filhos. Achei curioso o uso da palavra esquecer,  afinal poderiam os parceiros esquecer de ser casal; ou seria a chegada dos filhos uma grande transição no ciclo de vida familiar e, como toda transição, estas pessoas precisariam lidar com as aprendizagens desta nova fase e com aquilo a ser deixado pra trás?


Estou de acordo que seria mais fácil se a situação pudesse ser contornada com um lembrete: "pais lembrem-se, vocês também precisam ser um casal". "Pais lembrem-se: tirem um tempo para ficarem juntos". No entanto, é necessário mais que "não esquecer", é necessário construir este lugar de ser um casal com filhos ou, em outras palavras, tornar-se uma família.


A chegada de um filho altera a rotina a dois, a dinâmica familiar, a relação com os amigos, com o trabalho remunerado, com o trabalho doméstico e com o trabalho do cuidado. É uma nova fase e como toda nova fase exigirá dos envolvidos aprendizagens, uma delas é criar espaço para este novo integrante.


E aí que está o ponto central: como abrir espaço para mais um? Quando o casal não faz esta aprendizagem pode ter dificuldade em tornar-se pais sem distanciar-se muito enquanto casal, seja por não conseguir abrir espaço para o integrante que chega, seja por abrir espaço demais para relação pai-criança/mãe criança, ficando de fora a relação de casal.

Vale frisar este quantificador - muito -, porque o casal, naturalmente, com os cuidados de um bebê/filho terá menos tempo para investir na relação a dois, mas o ponto da nossa conversa é como, ainda assim, não deixar de ser casal. Faz sentido por aí?

Quantas famílias vivem o divórcio sem ter passado pelo divórcio judicial, casais que estão separados, mas não legalmente. Nestes casos a configuração pode ser de um parceiro casado com o trabalho e o outro com o(s) filho(s). Dividem boletos, compartilham problemas práticos e o cuidado com as crianças, mas já não existe intimidade, planos em comum ou troca afetiva. A sexualidade, quando existe, entra no campo da obrigação ou do conhecido padrão “gato e rato”: um se sente rejeitado, o outro sobrecarregado e sem energia para investir em um momento a dois.

Seria a abordagem deste tema uma necessidade para repensar as relações familiares e reduzir os casos de divórcios que só tem crescido nos últimos anos, seria uma tentativa de aparar arestas e ajudar as famílias a viverem felizes? Este tema é uma necessidade não para evitar divórcios, mas para ajudar casais a lidar com os desafios de serem, simultaneamente, casal e pais em um contexto em que cada vez menos adultos estão disponíveis para o cuidado das crianças e em que o mercado de trabalho pouco flexibiliza suas exigências em nome da família — ao contrário, espera que a família sustente suas demandas.

Virginia Satir afirma que “o casal é o arquiteto da família”. Essa frase, por si só, já justificaria a importância de nutrir a relação conjugal. Não são apenas os parceiros que se beneficiam de um vínculo bem cuidado; o bem-estar e a funcionalidade da família dependem diretamente de como esse casal está. Cuidar do casal é também cuidar dos filhos.

Um casal funcional tende a construir uma família funcional. Quando os adultos conseguem dar sentido à própria vida sem orbitar exclusivamente em torno da criança, fortalecem-se em outros papéis e funções. Isso traz leveza para o filho, que deixa de ser a grande razão do viver dos pais ou o depositário de expectativas excessivas. Ao mesmo tempo, abre espaço para crescimento do casal em seus projetos, tarefas e desejos.

Ao colocar temas como maternidade e vida profissional, casal e parentalidade lado a lado, é comum cair na busca por um suposto equilíbrio — como se houvesse uma equação ideal a ser descoberta. Mas não se trata disso. Como nos lembra Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas:“A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.”

O foco, portanto, não é encontrar um ponto fixo de equilíbrio, mas possibilitar que o casal observe a si mesmo, reconheça sua realidade, contexto, momento de vida e padrão de funcionamento, e construa pontes para que essa transição no ciclo vital familiar promova crescimento para todos os membros.

Qual seria, então, um mapa possível para a construção desses caminhos?Um ponto fundamental é ter clareza sobre as funções do casal e as funções parentais. Essa distinção facilita a tomada de decisões, ajuda a identificar o que precisa ser renegociado e permite aprender novas formas de funcionamento em cada papel.


Enxergar e nomear as dificuldades — e saber em qual papel elas se manifestam — é um bom começo para que cada parceiro possa se responsabilizar por fazer diferente e, assim, abrir espaço para o novo integrante da família.


Solange Rosset, no livro Temas de Casal, descreve essas funções de forma bastante didática. As funções do casal seriam:

  1. Ser refúgio para os estressores externos;

  2. Construir a forma de se relacionar com a família extensa e o meio social;

  3. Desenvolver intimidade e sexualidade;

  4. Preservar as fronteiras do casal.

Já as funções parentais incluem:

  1. Nutrir (alimento, orientação, informação e afeto);

  2. Colocar limites;

  3. Promover autonomia de acordo com a idade e competência da criança;

  4. Ser continente emocionalmente.


A separação entre esses dois papéis funciona como um mapa. Diante das inúmeras dificuldades do cotidiano, ela oferece um norte sobre quais funções precisam ser preservadas e ajuda a evitar confusões entre os espaços de casal e de pais. Há casais, por exemplo, que conseguem negociar bem as questões relacionadas aos filhos, mas não conseguem negociar nada que diga respeito à relação a dois.

Identificar em qual papel está a dificuldade facilita a aprendizagem necessária para atravessar essa fase do ciclo vital familiar — aprendendo, aos poucos, a abrir espaço para o filho sem fechar o espaço do casal.

 
 
 

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